segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Foto de Henrique Real, 2006, Patagónia

Por Clara Queiroz Lopes




Faz 6 anos que cá estamos sem o Zé. Sinto que estes 6 anos não o afastaram de mim, nem um pouco. Por vezes, vamos deixando ir pessoas de quem gostámos muito. Mas não o Zé. O Zé não é pessoa que eu deixe partir, ou ir partindo. A natureza da relação que tínhamos não depende do tempo ou da presença física. Foi outra coisa mais concreta do que o tempo, por isso não tem fim.

Não tenho nada assinalável para contar do que foram os momentos que passámos juntos: não houve grandes aventuras, exotismos, conversas profundas. O Zé aparecia e pronto, o mundo estava certo.

Tudo o que eu fazia lhe parecia extraordinário. Nunca as minhas pequenas obras conseguiram impressionar tanto alguém (nem a ti Olivier!). Eu discordava, “oh Zé, que exagero!”, mas ele tinha visto o desenho de uma casa, uma certa chaminé e passados anos ainda me dizia: “ai menina, aquela chaminé” (e eu ficava feliz por ser minha a chaminé)!

De vez em quando aparecia-me no atelier às 4 da tarde, sem avisar. Entrava levezinho, sorridente: "Então, vamos buscar a Matilde?” Gostava de ir buscá-la comigo. E na espera, no parque de estacionamento, deitava o olho às mamãs aperaltadas das outras crianças. Depois chegava a Matilde e era uma alegria. Eu brincava: “o que o Zé quer é ir ver as mamãs!” Às vezes trazia o Carlos, sempre às 4. E lá íamos em euforia até à escola. Grandes marotos!

Se vinha jantar a minha casa, quando me separei, não esquecia a caixa de ferramentas. E enquanto eu cozinhava ele pendurava os quadros, os candeeiros, montava as estantes no quarto da Matilde. Volta e meia levava-me ao Murtal, a um restaurante que só ele conhecia, onde se comia o melhor peixe. E um dia disse-me: “se a menina algum dia precisar de dinheiro, vem logo falar comigo”. Nunca fui e nunca vou esquecer. Que bom Zé, obrigada!

Um dia, ao volante do seu Mercedes, numa estrada sinuosa da costa alentejana, encostou o carro e disse-me: “venha a menina conduzir”. No lugar do pendura, poucas instruções me deu: um sorriso silencioso, muito doce, foi a marca do nosso passeio.

Clara

sábado, 17 de dezembro de 2016

José, o meu adeus


O texto que se segue, com a data de 17 de Dezembro do ano passado, o dia em que se cumpriam cinco anos desde a partida do Zé, foi-nos enviado há três dias pelo seu irmão Francisco, juntamente com a convocatória para o nosso anual jantar de saudade.

Os retratos foram-me ontem enviados pelo José Paulo Saraiva Cabral. Feitos no dia 27 de Março de 2010, oito meses e meio antes da nossa tremenda perda.

Logo à noite estaremos todos juntos, e o Zé estará entre nós.


JOSÉ, O MEU ADEUS

Era um fim de tarde de domingo. Daqueles domingos que se passam a fazer coisas em casa e no fim do dia estamos mesmo cansados. Apetecia-me dar repouso ao corpo e ao espírito, mas tinha de ser num aconchego amigo, para poder sentir-me à vontade.

Jantei, e resolvi ir visitar o José.

Depois de ser recebido pelo seu timbre, decidido mas macio, e com o acolhedor "olá kad", já sabia que me esperava o sofá fofo onde costumava deixar o corpo enterrar-se. Depois disso, já sabia também, era muito mais difícil voltar de novo à posição "de pé". E ali fiquei.

Conversámos de coisas sem muito tino, banais. Quando a conversa começou a esmorecer já sabia também, pois fazia parte do ritual de acolhimento, viria o convite: não queres ver uns slides? Pois claro que queria!

Lembro-me da primeira "cassette". Um passeio a dois pelo Alentejo. Havia um barco a remos. Julgo que seriam slides antigos. Depois, outra "cassette". O José explicava tudo com pormenores que só ele podia lembrar. Comentários jocosos, mas ternurentos. Seguramente umas coisas escondia, outras dizia. A sua memória ia desfilando, pausada, como num monólogo.

De quando em vez eu fazia um esforço e perguntava qualquer coisa. Para não parecer desatenção pelo gosto que estava a ter ao abrir-me tudo aquilo.

Então, de repente lembro-me bem, olhei para o José e estava ele com um sorriso maroto, e cúmplice, a olhar para mim. Arrumando a "cassette" dos slides com gestos lentos, mas sem nada dizer. Percebi tudo, e fiquei sem saber que dizer. Ele, também tinha percebido tudo...

Relembro muitas vezes estes momentos, porque foram os últimos, e choro. Choro por não poder, quando sinto falta do seu carinho, voltar a poder pensar: vou fazer uma visita ao José...

Lisboa, 2015_12_17
Francisco

quinta-feira, 5 de março de 2015

Alves 2016

Por Matilde Real, com 15 anos quando o Zé nos deixou

Verão de 2010


O tio Zé Alves morreu em Dezembro de 2010. Foi um dos nossos amigos mais queridos, mais aconchegantes. Já lá vão quatro anos e ainda consigo ouvir a sua voz ao meu lado a suspirar, com uma desconsolação divertida: “A menina tem é de ver o Deer Hunter", filme que idolatrava.

Fomos aos Açores, era eu ainda criança. Fizemos inúmeras caminhadas, explorando a selva de Portugal. A sua casa era única, forrada de alcatifa felpuda em todas as superfícies, com artefactos dispostos em prateleiras dignos de pertencer ao Louvre, e onde ao fim de tantos anos comíamos sempre o mesmo ao jantar: bife com batatas fritas!

Todos os Verões passávamos férias em Odeceixe. O tio Zé adorava as partidas de cartas que se faziam à noite, onde ensinava os jogos que só ele conhecia, convocando a boa sorte ao chamar por “Jedai!” Os passeios à Ponta Branca e as grandes jantaradas eram essenciais. Lembro-me de dançar com o João sobre o capô do grande Mercedes, saltando para o chão antes que o tio Zé reparasse.

Em 2007, na praia, atravessámos o rio, fomos até às rochas e escrevemos o nosso nome em pedras que deixámos apoiadas na falésia, para que o mar as levasse. Reparei na pedra do tio Zé, onde escrevera “Alves 2009”. Explicou-me que era um extraterrestre do futuro, deixando ali a sua marca. A escrita do nome em Odeceixe tornou-se desde então num ritual de Agosto. O tio Zé partiu entretanto, mas cada Verão continuo a ir às rochas, escolho uma pedra lisa, toda preta, e escrevo “Alves” e data, somando dois anos àquele em que me encontro. Este Verão foi 2016. O tio Zé sobrevive no futuro.



sábado, 15 de março de 2014

Nostalgia


Cresci com um fascínio autêntico pela linda garrafa do vinho Gatão, maravilhada pelo rótulo com aquele gato das botas de garrafa debaixo do braço, rótulo a conter outro rótulo que, por sua vez, continha mais outro rótulo, e esse mais outro, e assim até ao infinito. Lembro-me de em pequena pasmar sempre, encantada, para um daqueles cartazes publicitários de vidro pintado de outros tempos, na Rua Braamcamp, entalado entre a charcutaria e a Madame Campos (Academia Científica de Beleza Madame Campos, conceituado e célebre instituto de beleza onde fiz a minha primeira limpeza de pele, aos 16 anos, por causa de umas borbulhinhas que me fizeram ter medo de ficar com acne, esse pesadelo da adolescência ao qual graças a Deus fui poupada, ao contrário de algumas amigas minhas).

Sei que, só por causa da garrafa e do rótulo, foi o primeiro vinho verde que provei, e nos anos 80 era sempre o vinho que bebia com o Zé nos nossos jantares no Peipin, o restaurante chinês da Duque de Loulé a que éramos afeiçoados e que tinha um empregado igualzinho a Hercule Poirot.

Não sei quem terá sido a nódoa da direcção dos Vinhos Borges que resolveu, julgo que a meio dos anos 90, mudar as duas coisas, a garrafa e o rótulo, nem quem terá sido autor do ranhosíssimo resultado final. Só sei que, quando dei pela mudança, nunca mais bebi Gatão.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Passeio de Inverno

Por Henrique Real




Demos os primeiros passos na luz molhada da manhã quando iniciámos o passeio no Monte da Eira Velha, junto à estrada de terra que conduz à margem norte da Ribeira de Seixe, já no seu percurso final, separando o Baixo Alentejo do Algarve. O curso de água principal toma inicialmente o nome de Ribeira da Perna Negra, junto à serra de Monchique, e depois de passar a povoação de Foz de Perna Seca recebe a Ribeira do Lameiro. Só a partir daqui adquire o nome de Ribeira de Seixe até desaguar na Praia de Odeceixe, por baixo da Ponta Branca.
Depois de transpostos os canaviais que marcam o cruzamento com a estrada que vem da praia da margem norte, um lugar de eleição para os viajantes de carros-caravanas onde os míticos “pães-de-forma” se encontram ocasionalmente, virámos à esquerda. A estrada deserta de trânsito apenas se congestionava uns metros bem acima das nossas cabeças, onde as aves circulavam em camadas, como se um radar de aeroporto as obrigasse a manter a mesma altitude. Mais perto, os pardais vulgares, em voos desordenados, confundiam aquele domingo de janeiro com qualquer outro domingo de abril – podia ser do mesmo ano –, tanta inundação de luz por ali havia. Lá no alto, as silhuetas de um casal de milhafres assinalavam a fronteira proibida do céu. Cá em baixo, junto ao rio, três cegonhas brancas deslizavam, a velocidade constante, por cima do reflexo da água.
Passámos por uma zona sombreada por pinheiros bravos; do lado esquerdo, por trás das sombras, a cobrir uma colina meia de areia, meia de barro, brilhava o óleo da esteva que por ali abunda e que tanto contribui para o sucesso da Dior ou da Chanel. Do outro lado da estrada, os prados de regadio não largavam o pequeno rio. As primeiras casas alentejanas anunciavam a chegada a Baiona – ainda estamos bem longe de Biarritz, gracejou um de nós – junto à ponte metálica que liga ao Algarve. Já do outro lado da ponte, virámos no primeiro cotovelo à esquerda e tomámos o Sul, o mesmo que Luís Sepúlveda refere nos seus livros. Preferimos seguir a indicação de Zambujeira de Baixo, embora a Patagónia estivesse quase na mesma linha recta. Esse caminho tornava-se mais encharcado, mais florido, mais perfumado e, às tantas, a nossa vontade caminhava à nossa frente, já para além da curva com o risco de se perder na serra de Monchique. Quatrocentos metros mais adiante, largámos o rasto do perfume e virámos à esquerda por um caminho ainda mais ensopado; um de nós terá mesmo dito para não andarmos por cima das águas do rio que isso iria dar asneira, até porque não consta da literatura religiosa que alguém tenha esse poder de caminhar por cima das águas de mochila pesada. Normalmente andam nus, ou, na melhor das hipóteses, cobertos de um pó dourado que não os impede de flutuar, disse a voz no fim do pelotão.
Atravessámos a sombra de um arvoredo em forma de arco e saltámos para cima de uma tábua larga e muito comprida de madeira por baixo da qual pequenos braços de água se iam juntando à ribeira de Seixe. A paisagem tornava-se mais agrícola, pela cor e pelo cheiro. Cabeças de gado mexiam-se à procura de erva abundante para reporem a ruptura de stock dos seus quatro estômagos, provocada pelo verão seco do ano anterior. Prosseguimos com o passo a pensar no futuro e infletimos ligeiramente para norte, até chegarmos à povoação de São Miguel. O aglomerado de casas – fachadas perfilando-se umas atrás das outras – anunciava um projeto urbanístico relativamente recente, com elementos supostamente  urbanos pretendendo afirmar-se na imensidão da paisagem natural. O gazão de um pequeno jardim público – o mesmo que amortece a sola dos sapatos dos golfistas – poderia desafiar um prado a perder de vista, confundindo-se lá ao longe com a sombra de três enormes colinas, não fora pelos três volumosos contentores de lixo colocados na nossa linha de visão. Lembrei-me de Orsenna, esse agitador de consciências, quando diz que “… on risque de tout foutre en l’air”.
Depois de vinte minutos de relógio, saímos da estrada alcatroada que nos deveria levar a São Teotónio. Desembrulhámos os 1:25000 da carta militar e decidimos prosseguir para oeste por um carreiro, descendo e subindo planaltos cobertos por coníferas, eucaliptos e outras árvores de alto porte, para facilitar a descrição. Desse ponto alto, vislumbrava-se uma magnífica paisagem – parece uma frase batida mas não é, trata-se rigorosamente de uma magnífica paisagem –, e para trás de nós ia ficando o recorte silencioso da serra de Monchique. A norte – o mesmo que Eric Shipton conquistou em 1958 – observavam-se paredes brancas que refletiam a luz solar, mas já com uma inclinação de sessenta graus. À nossa frente pressentia-se, lá ao longe, a presença do mar. A estrada que pouco antes era um carreiro – mas podemos aceitar a memória confusa – ia-se estreitando vagarosamente até se tornar uma pequena passagem. Para sermos ainda mais rigorosos, a partir dali caminhámos num “pé-posto” escorregadio, apertado pelas ramagens das árvores, pelo som de água a correr e pelo ladrar de uns cães junto a uma pequena casa retirada de um conto infantil. A chave na porta e a chaminé a fumegar levava-nos a imaginar quem poderia ali viver – É o Wladimir Kaminer, regressado da Viagem a Tralalá para escrever o seu livro, disse um, Não, é o Almeida Faria, que para aqui veio escrever O Murmúrio do Mundo, disse outro – quando senão ouvimos o assobio de uma mulher a chamar pelos seus cães. Passámos novamente por um pequeno curso de água até chegarmos a Choeiro, o nome de duas ou três casas que serão ou foram uma aldeia em tempos remotos. Informo, para quem não conhece, que não muito longe dali, a caminho de Santa Clara de Saboia, existem duas aldeias com uma toponímia sonora parecida, a primeira chama-se Choça, a segunda Chaiça, esta provavelmente fundada pelos muitos alemães que por ali naufragaram.
Pouco depois chegámos à estrada N120 que liga Lagos a Odemira. Continuámos o caminho sempre para oeste, nessa altura num ritmo mais acelerado pelo relógio biológico, seguindo a torre do depósito de água que indica onde fica o Brejão. Após uma pequena pausa no Café Central, saímos reconfortados por uma sopa quente e biológica, diriam aqueles que raramente saem das grandes cidades. Do Brejão à Azenha do Mar eram cerca de quarenta e cinco minutos a passo largo. Do lado direito da estrada, estufas, do lado esquerdo da estrada, estufas. O ar leve e fresco da serra dava lugar a um cheiro nauseabundo apodrecido pelas “químicas”, como diz a gente local, que permitem que milhões de alfaces ali cresçam nos 250 hectares orgulhosos da multinacional Vitacress Salads. Por detrás de uns arbustos e de telas de plástico rasgadas pelo vento que em tempos haviam servido de estufas, ouviam-se os risos de um grupo de homens e de mulheres, peruanos, colombianos, tailandeses, romenos, ucranianos, que passados nove meses ou nove anos povoarão aquela região com uma etnia imprevisível.
Chegámos finalmente à Azenha do Mar. Parecia um dia de festa mas era apenas o frenesim à volta do único restaurante da terra onde as pessoas se acotovelavam para se sentarem à volta de um tacho pousado em cima de uma das mesas. Virámos à direita na Rua da Garoupa, depois prosseguimos pela Rua do Robalo, continuando pela do Linguado e do Polvo, chegando finalmente à grande avenida dos pescadores, tudo isto numa distância máxima de cinquenta metros. A Azenha do Mar é uma pequena povoação formada por uma comunidade piscatória, mas no início dedicava-se apenas à apanha das algas. Só mais tarde se viraram para o peixe ou para a emigração. A alga não dava dinheiro e o peixe, hoje, pouco dá.
Atravessámos a pequena ribeira junto ao suposto porto piscatório e continuámos o caminho em direcção a Odeceixe, ora a descer ora a subir, até chegarmos ao planalto arenoso coberto por esteva, chorão e outras tantas plantas marítimas. Nessa paisagem sentimos o princípio ou o fim do mundo, a mão do criador invisível ou seja lá quem ele for; foi ali que tomámos consciência de que todos nós somos feitos da mesma matéria,  e todas as células que transportávamos desde o início do passeio  se confundiram com as do sol, as do mar, as dos peixes, as dos cardos, as da lama presa aos sapatos. Só o barulho do passo nos levava a acreditar que tínhamos duas pernas e éramos humanos.
As pernas felizes deram lugar a pernas cansadas ao fim de mais 30 minutos de marcha, quando chegámos à Ponta Branca, a norte da Praia de Odeceixe. Qualquer palavra ou frase que quiséssemos compor para descrever o que víamos ao nosso redor era imediatamente levada pelo vento. A Ponta Branca é daqueles lugares onde havemos de voltar até ao último dia da nossa vida na tentativa de escrevermos um pequeno parágrafo. É o nosso direito ao delírio, como diz Galeano. E lá do alto, junto da deusa-natureza, deixámo-nos transportar pelo último raio solar do dia até descermos ao monte. 



Dedico este pequeno texto ao Zé Alves, de tantas saudades que deixou; e ao Carlos Gomes, de tanta vontade em continuar a andar; e à Teresa, por possibilitar e manter a alegria destas memórias. 

Janeiro/14

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Sobre este blogue

Criado por mim há quase sete anos, a 7 de Janeiro de 2007, caprichosa tem sido a actividade do Alves & C.ª. O Carlos Gomes aceitou desde logo o convite para ser co-autor, o Zé preferiu manter-se como fornecedor de material fotográfico e, em privado, melga de alvitres e sugestões de cada vez que surgia nova publicação. «Na caixa de comentários, se faz favor!», resmungava eu. Em vão. As observações dele chegavam-me sempre via telefone ou por correio electrónico, nada a fazer.

Sobre o nome do blogue, eterna incompreendida que sou, também houve reparos. Por parte do Carlos, insurgindo-se bem humoradamente contra o papel secundário para que ele nos remetia a ambos. Mais uma vez por mensagem privada, ignorando olimpicamente a caixa de comentários tão mais adequada para o efeito. Essa mensagem, que aqui transcrevi, permitiu-me explicar muito sucinta e definitivamente o galhardo nome Alves & C.ª: é o título de um romance do grande Eça de Queiroz, enorme paixão minha; haver um Alves no nosso grupo foi uma feliz coincidência de que me apressei a tirar partido. Tão simples como isso.

O Carlos e eu fazemos a sua gestão, mas o Alves & C.ª é de todos nós e parece-me um instrumento muito adequado para registar e partilhar o enorme acervo de memórias felizes que o Zé nos deixou. Para maior comodidade de todos, instalei hoje uma funcionalidade que permite subscrever por email as actualizações que forem sendo feitas. Está na barra lateral direita (ver imagem), é só porem o vosso endereço de correio electrónico, submeter o registo e confirmá-lo após recepção de mensagem, para que seja validado.


Mensagem e apelo do Francisco Silva Alves

Seguiu hoje para todo o grupo de amigos do Zé, incluídos os que não puderam estar presentes no jantar de dia 17 de Dezembro – alguns estavam do outro lado do mundo –, a mensagem que abaixo transcrevo. Julgo que este blogue pode ser um bom e eficaz ponto de encontro para todos nós. Julgo também que todos gostariam de poder ler aqui as reminiscências que cada um guarda do Zé, memórias preciosas e ternas, quase sempre entremeadas de humor. Vamos então à mensagem do Francisco, e venham daí os vossos contributos.

Meus caros

Gostei muito do momento do jantar e gostei muito de estar convosco. Faço por manter vivo dentro de mim, tudo o que partilhei com o José. E quando estou convosco, revivo muitos desses momentos. E depois dou-me conta, ao ouvir contar as milhentas estórias que cada um de vocês também partilhou com ele, da complexidade e riqueza da sua personalidade.

Um texto do José Paulo Cabral de 2010, que agora me chegou através do Luís Simão, merece ser lido pois retrata muito bem, quanto a mim, esses traços da personalidade do José. Esse texto está já no blogue "alvesecia", de que falarei em seguida para quem ainda não o conheça. De qualquer forma, insiro em anexo esse belo texto.  

Agora, aqui fica algum retorno mais do jantar.

(a) Lista de contactos. Fica manuscrita tal como a recolhi. Se alguém se quiser "chegar à frente" e puder fazer um quadro em excel seria muito bom. Nestas coisas só se avança se o trabalho for repartido. Seria bom que cada um pudesse ir adicionando também novos contactos para alargar a lista. Basta mandar para mim que eu retenho e depois coloco na dita lista. Por exemplo, faltam pessoas que estiveram no jantar de 2011 e colegas médicos (José Fajardo e outros). A lista poderá alargar as presenças nestes convívios.

(b) Organizei uma lista de contactos em word. Permite fazer "copy/paste" e mandar mails para todo o grupo em simultâneo.. Espero que vos possa servir.
(c) Mando algumas fotos do jantar, também em anexo. Presumo que nem todos nos conhecemos. Há alguém que saiba colocar os nomes por cima das fotos? Eu poderei apoiar mas não sei fazer.

(d) Mando também o texto que escrevi e que já está, acompanhado de uma belíssima música, no blogue.  

(e) A propósito do blogue, conto o que sei para quem não conheça. Trata-se de um blogue que relata as aventuras dos Alves e Companhia. Sobretudo viagens. Mas agora também com depoimentos sobre o José. O motor e a alma do espaço é a Teresa Leandro. Viagens que metiam obrigatoriamente o Carlos Gomes e outros mais, de quando em vez. Têm divertidos relatos, com muito boas fotos e belas músicas de fundo. Vale a pena visitar. Aqui fica o endereço  http://alvesecia.blogspot.pt/

(f) Continuo a pensar que o José merecia uma colectânea de estórias e fotos. Estilo caderno organizado. Falta apenas continuar com relatos escritos, pois verbais são muitos. O blogue está disponível para receber directamente essas contribuições. Se necessário esclarecer pormenores com a Teresa Leandro.

(g) Finalmente gostava de deixar uma outra ideia. Uma das facetas importantes do meu irmão foi o ter o sido o "fotógrafo oficial" de muitos eventos em grupo. Grande parte de nós estamos retratados nesse arquivo imenso de "slides", com apontamentos sobre locais e pessoas a servirem de suporte, e que está em Miraflores. Vamos começar  a reviver esse passado? Pode fazer-se em conexão com os jantares, com vários figurinos possíveis a experimentar. Basta uma sala grande e no grupo existe quem tenha. O Ricardo poderá dar algum apoio nisso. De qualquer forma é preciso dar um "destino com futuro" a esse arquivo.

Espero não vos ter maçado. Um abraço a cada um. 

Francisco

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Crónica do Meu Amigo Zé Alves

Por José Paulo Cabral, há três anos.

Diz-se bem de toda a gente que morre. Nunca percebi bem.
– Será porque a partes mais sombrias do carácter de cada um são automaticamente apagadas a partir do minuto em que se morre?
– Será porque quem fica, e entende manifestar-se, quer adquirir uma pequena parte do protagonismo de quem partiu e decide esquecer, intencionalmente, politicamente, as partes menos edificantes?
– Ou será porque as pessoas boas vão primeiro?
Contra lógicas e sensatezes inclino-me para a terceira hipótese.
O filósofo José Gil, no livro Portugal Hoje, o medo de existir, também se refere à morte como um exemplo paradigmático da recusa portuguesa de inscrever; diz ele: socialmente, nada vindo do morto se prolonga na vida colectiva portuguesa; colectivamente, só o rito fúnebre lhe deu existência, só viveu à tona da vida durante o tempo da cerimónia fúnebre. Falamos em termos colectivos, não dos amigos e dos entes mais chegados.
Ocorrem-me estas reflexões porque o Zé Alves, todos nós, segundo me parece, devemos, de alguma forma, permanecer, ser inscritos, ser ouvidos no futuro, estejamos ou não entre os vivos. Ter a promessa de vir a ser antepassados. Mas quem quiser que leia o livro e que o perceba, se conseguir.
O nosso querido amigo Zé Alves morreu no dia 17 de Dezembro de 2010, segundo veio a saber-se, durante o sono, tranquilo. Acordou sem acordar, na sua posição do costume. E só.
Pregou-nos uma grande partida que permanece difícil de acreditar: dois dias depois de um dos convívios normais de amigos, os anos do Zé Luís; e uns cinco depois do habitual passeio de sábado de manhã, as tertúlias a passo, falando sobre tudo e sobre coisa nenhuma, os pregos no pão, as imperiais e os sumos. As miúdas a sorrir dos galanteios dos jovens antigos. O Zé de sempre, displicente para os temas aborrecidos da vida, mas sempre aquela companhia, a pessoa, o estar, trazia-nos o filho, a quem, apesar de homem feito, se colou o título de “Joãozinho” herdado dos tempos de miúdo, e que nós receávamos que se chateasse de morte com as conversas dos velhos. Mas ouvia-as, tudo indica. Este Zé foi a notícia desconcertante e triste do fim de tarde do dia 17. O choque. O não pode ser.
Mas foi.
Era um tipo especial. Sempre disponível para todos, sem parecer. Na sua sacola dos slides, uns 20 quilos de material, cassetes redondas, impecavelmente organizadas, o projector, o transformador massivo, uns 7 quilos, que transformava, sem aquecer, os 220 V das tomadas nos 110 V do projector, nunca ninguém percebeu a razão, os cadernos com os apontamentos minuciosos dos conteúdos, o ponteiro laser. O ecrã com tripé ia por fora. E lá se montava a parafernália e se assistia a um espectáculo deslumbrante das expedições que fazia por esse mundo fora, paisagens e naturezas, sem pessoas, só figurantes, magníficas fotografias, sem artifícios e sem efeitos, Trás-os Montes, Patagónia, Sicília, Moçambique, Alentejo, Holanda, Irlanda... E no fim, regresso de tudo à mala, onde ainda tinham sobrado umas cassetes, tudo minuciosamente rearrumado.
Era o nosso otorrino de serviço. No meu caso, com quatro filhos, as consultas eram frequentíssimas, Passo por aí às seis, Mas eu só chego às sete, Não faz mal, eu vejo o puto! E via, espreitava ouvidos e gargantas, sempre em falatório eloquente, depois uma visita à gaveta dos remédios, Vamos ver o que há por aqui. Locabiasol era receita frequente e o tipo tratava mesmo bem, sem parecer. Mais velhos, a minha prole já o contactava directamente, abusava, mas lá estava o Zé do costume, Passo por aí às 8.
Em conferências mais alargadas, na Junceira, havia a feira do Quem quer receitas? A verdadeira medicina social. E o sabor a vida. E lá se passava a uma azáfama de autocolantes e receitas médicas. A bem da saúde e do bem-estar.
Outras vezes privava-nos da sua companhia porque ia fazer buracos na parede a casa de uma velha amiga que não tinha ninguém. Black & Decker, julgo que noutra mala, completa com buchas, parafusos, escápulas, camarões, colas, espátulas, chaves de parafusos, alicates, martelos e o que mais. Ricas tardes passadas a fazer buracos e a pregar quadros dos outros. E a estar.
Quando estive doente nunca telefonava. Aparecia onde fosse. E ficava cinco minutos. Pouca conversa e Adeus Zeca, vê lá se melhoras.
Nunca conheci nem conheço ninguém tão disponível nem tão displicente em relação à sua disponibilidade.
E não conto mais histórias, quero apenas vir a recordá-las a propósito, como se o Zé continuasse, e que a tristeza da sua falta vá ficando preenchida por essas recordações.

Lisboa, 19 de Dezembro de 2010.


José Paulo Cabral

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O José Alves na Intimidade

Recordações do irmão Francisco

Então quando é que vamos visitar a Tia?, perguntava muita vez o Luís Simão para o meu irmão José. A nossa tia de Vizela, de noventa e alguns, viúva de um irmão do nosso pai, era o mote para uma escapadela a três. Por terras do norte, bem entendido. Eram dois ou três dias de aventura, cujo itinerário ia sempre emergindo das profundezas da cabeça do José, com o amém inevitável do Luís, quando não era o Luís, conhecedor dos enredos daquela mente, que o picava com sugestões estapafúrdias.

No fundo, o José, nos intervalos das visitas aos sítios, dos descansos e das comidas, gostava era de conduzir. Percorrer caminhos que não conhecia, ou por onde já não passava há algum tempo, qual condutor profissional zeloso dos seus conhecimentos de estrada.

A paragem obrigatória em Vizela, para visitar a tia Etelvina bem entendido, metia conversas, e jantares familiares com os nossos primos “residentes”. O José animava as recordações com as suas galhofas à mistura. A nossa tia, a “Tia Nova”, que era folgazona, ria muito com os seus ditos e fazia com ele um bom dueto. O último dueto fez agora três anos. A nossa tia ainda ficou mais um, depois.

A “Tia Nova” apareceu assim baptizada por se ter “intrometido” na família quando nós, os três irmãos, estávamos a espigar. Eu, o mais velho, para aí com oito, depois o José com seis e a Teresa com quatro. O casamento foi de resto uma festa. Com a nossa irmã, no meio de toda aquela multidão de familiares, meio envergonhada, tentando levar direita, até aos noivos, a salva das alianças. As outras tias já faziam parte das “mobílias” das respectivas casas, quando começámos a perceber que tínhamos quase toda a família no norte.

Mas voltemos ao passado recente, das escapadelas a três: José, Luís e Francisco. Em Vizela, pernoitávamos na Pensão Central. Central, porque ficava na esquina que dava para o estabelecimento de banhos. E Vizela foi, durante muitos anos, os banhos nas termas. Eu ficava com o José e o Luís no seu recato. Acontecia portanto dormir no mesmo quarto com o meu irmão, coisa que já não fazia desde a nossa juventude.

Era estranho. Parecia que estava de repente a descobrir uma pessoa que não via, de perto, há muitos anos. Recordo-lhe os gestos, pausados, ao abrir o saco. Olhando para mim quando eu o olhava e a dizer: então “kid” ? Com um sorriso maroto, de galhofa. Mas colocava tudo meticulosamente. Como a casa dele, é claro, deduzia eu. E as rotinas? um livro ou revista, trazida de propósito para fazer vir o sono, o tirar dos óculos, um até amanhã e lá se ficava. Amanhã há mais, e melhor, devia pensar.

Levantava-se e queria logo abrir as cortinas, abrir a janela e olhar para fora. Devia olhar e ficar por momentos a inventar a próxima etapa. Continuava, para mim, a ser um espectáculo observá-lo de novo a arrumar os pertences no saco. Como conseguia um canto para cada coisa por forma a que as camisas, as meias e as camisolas ficassem, como ficavam: arrumadas! Passados todos estes anos voltava a descobrir, na verdade, quem era a pessoa que estava por detrás do meu irmão.

Recuando, lembro-me dele quando se “intrometeu” na minha vida, fez este ano, em Outubro, sessenta e nove anos. Foi uma presença incómoda no ambiente rotineiro, vivido por mim entre mãe, pai e a empregada que nos criou. O que fazia ele, ali, naquele ambiente?

Mais tarde, brincávamos a construir casas tendo por base a máquina de costura Singer da minha mãe. Máquina grande de pedal, estilo mesa. A porta da entrada da casa fazia-se por cima da armação em ferro do pedal. Depois, com cadeiras e bancos e toalhas agarradas com molas da roupa, surgia o interior da casa, para trás e para a frente. Que se ia enchendo com carros, cubos de construção. Enfim, com o que tínhamos à mão. Depois fazíamos guerras com soldados ou corridas de carros. Os carros já eram a sua paixão. Alguns pertencem ainda à sua colecção.
Lembro-me que era bom. Ao fim e ao cabo eu tentava conduzir as coisas, dar “ordens” e ele a concordar. Assim estava bem. Sentia-me confortável. Embora, relembrando, teria eu cinco anos? Fico com a suspeita de que ele já as fazia pela cabeça dele. O caldo entornava mais, quando em casa, ou com os amigos da família, se falava no “Zézinho”. Lá ficava eu para trás, esquecido. Que raiva.

E passei anos com este registo em surdina, por baixo do resto. Porque será que só comecei a dar por ele, diferente de mim, a descobrir melhor quem era, alguns anos mais tarde. Talvez esteja a ser injusto para comigo, pois fizemos muita coisa juntos. É que dava mais jeito com ele. Com a Teresa, como rapariga entretanto aparecida, era um outro mundo, o das raparigas: com segredos e coisas diferentes.

Nestes ciclos de descoberta e mais atenção relembro também o Verão, precisamente há três anos, em que o fui visitar a Aljezur. Há muito que ele falava dessas férias sempre na mesma casa. Fui lá de propósito porque queria estar com ele. Ver como ele era. Seguir-lhe os passos e os gestos. Ver como fazia as coisas, como passava o tempo, quem eram os amigos. Tomar com ele outra vez banhos no mar. E também estava o João, que vi mais de perto. Percebi como se estava a afirmar com o pai. A amadurecer. E felizmente que fiz isso. Ficaram-me mais esses momentos bons.

Depois pensei que já me tinha acontecido o mesmo com o meu pai. Aqui há uns anos, quando quis começar a ficar mais próximo dele, de repente, fugiu-me também. Porque terá sido assim?

Fica uma saudade grande de não ter conhecido melhor os dois. De não ter conhecido esgotar mais intensamente o prazer da sua companhia, de partilhar conversas e afectos. 
Percebo agora que tenho de conhecer melhor ainda todos aqueles que me rodeiam.
Poderá dizer-se amar? É assim a vida.

Lisboa, 17 de Dezembro de 2013

Francisco Silva Alves

sábado, 17 de dezembro de 2011

Um ano sem o Zé

Cumpre-se hoje um ano, e ainda estamos incrédulos. Jantar de amizade para lhe render homenagem esta noite, no Painel de Alcântara, a homenagem de todos nós que tanto gostávamos dele, organizada pelo Miguel Cambezes. Tenho pena, muita pena de não ir, uma indisposição tramada impede-me, estou de roupão e a chá. Mas estarei lá em espírito.

Saudades do Zé.

sábado, 26 de março de 2011

A Lampreia



Março.  É neste  tempo  que os caracóis fazem expedições aventureiras, navegando nos mosaicos molhados do meu terraço. E é também  o mês da Lampreia, sabem, aquele nojento ciclóstomo cuja morfologia me recorda a taenia saginata mas que faz um arroz dito delicioso (que eu acho assim assim, mas adiante...).
E é o tempo das magnólias e também das camélias, as flores mais românticas, não apenas pela imortalidade que lhes deu Dumas filho com a sua Dama ou Verdi com a Traviata, mas também pela beleza singela com que vivem e com que morrem, pois nada há mais belo que um tapete de camélias caídas rodeando o tronco-mãe.


  as magnólias...

 
 e as camélias.

E, por isso (pela lampreia, claro, porque camélias e magnólias só eu pareço apreciar!) um grupo de gourmands-gourmets (vulgo lambões) se junta habitualmente para uma viagem gastronómica ao Minho (mas não só, também ao Mondego), com passagem, claro, pelos leitões da Bairrada  (aqueles bichinhos inteligentes e amorosos que nós empalamos grelhamos e devoramos salivando como ogres, ou aquele manjar de que todos os amigos conhecem um restaurante que serve o melhor).


Ora cá está o sítio do melhor leitão do mundo para o Pedro Henriques



E não há adega distraída que se livre de nós antes do respectivo tributo. Aqui são as Caves Aliança, onde tivemos a surpresa de encontrar aquela luminária do pensamento e da arte que dá por nome de Berardo, esse mesmo, o Joe. O Pedro Henriques não resistiu a mandar-lhe uma boca, "então a beber na concorrência?" Ao que a modesta criatura respondeu "não não, acabei de comprar estas caves." E lá seguiu para uma sala privada onde, pela porta entreaberta, se adivinhava uma misteriosa confraria.
Poupo-vos ao teor da brejeira conversa, que a imagem ilustra, com a simpática enóloga.


Certo é que depois de uns copos se começa a ver tudo a dobrar!

E até as paredes parecem ter pipas...


Mas melhor ou pior lá chegámos algures, neste caso a Monção, à Casa das Rodas, antigo solar dos Távoras que nos últimos anos foi a nossa base de operações (gastronómicas, claro, nas  cirurgias estamos geralmente mais sóbrios).

Dom José posa com seu ar de displicente castelão. Um belo solar de granito onde ainda conhecemos a Dona Isabel, última titular, personagem altiva como convinha à sua condição. Morreu pouco antes da nossa última ida, em 2010. Contava a Elisabete,a governanta e nossa anfitriã, que quando descia ao povoado para fazer qualquer compra ou solicitar serviços, a Dona Isabel passava à frente de todas as filas, olhando com ar sobranceiro e desdenhoso  quem quer que se atrevesse a censurá-la. Há que manter o povoléu em respeito!


Nos jardins meio abandonados do solar, cá estão elas: são ou não belas as camélias moribundas de que vos falei?

Ali perto em Monção, a Virgem das Dores olha com um semblante algo dorido para o supermercado Modelo e outros patrocinadores que lhe arranjaram, certamente, digo, à sua revelia!


Pequeno-almoço em Monção e uma volta pela vila




E depois pelas igrejas! Não perco uma. Nos sítios mais improváveis encontram-se estes concentrados de matéria moldada pela espiritualidade, tendo no seu interior, como as ostras, pérolas duma beleza e imaginação ora geniais, ora de uma ingenuidade e cromatismo tocantes. Não sou católico, mas gosto de me sentar sob aquelas abóbadas e sentir a força invisível da fé de quem as contruiu e de quem as frequenta. Beber aquele silêncio cheio de inaudíveis cânticos e sentir que há mais coisas entre o céu e a terra... como dizia Polónio no Hamlet.




Capelinhas tipo Via Sacra, que dão a volta à parte antiga de Monção, decoradas com as  flores frescas da devoção quotidiana.

 Time to go.



Adega do Sossego,  Peso, perto das termas abandonadas não muito longe de Valença. Jantar obrigatório. Rica vitela de Lafões, regada com um tinto verde da magnífica casta Vinhão. O que se nota na pose do João e no ar arrelampado do Pedro!


E por vezes, depois de uns alegres copos, o meu olhar resvala por insignificantes ou intrigantes mistérios do mundo.

E, uma bela manhã, lá fomos nós até à Galiza. Às Rias Bajas, comer, como no, as melhores ostras do mundo, regadas, melhor inundadas com um Albarinho galego. No caso do Zé os Albarinhos ou vinhões, cabernets ou sauvignons sempre abundantemente diluídos em cerveja. Gostos...



... Com as consequências inerentes registadas fielmente por este vosso escriba e por um bando de alegres espanholitas que alegraram o ar com os seus risinhos malandros.
No jardim público!!! Francamente,  Don José...!



E depois lá vêm sentar-se com este ar inocente!

 Malte velho, oferta do Vasco, que o José empunha orgulhosamente.

Noite no solar, lareira acesa, queijo e vinhos diversos seguidos daquele condenado whisky, paradoxalmente velho mas de vida breve.



Torre da Lapela. Já noutros anos quando a avistávamos da estrada para Valença o Zé lá queria ir.
Foi desta!



No caminho encontrámos outro grupo de turistas, que, perdidos do guia, tasquinhavam placidamente os petiscos regionais.

E  chegámos à torre com este magnífico espinheiro em primeiro plano.


E o que é que a torre tem na lapela?
Vejam,  um arbusto, símbolo talvez da pertinácia das gentes e da versatilidade das pedras


Mosteiro de Sanfins. Fundado no Séc. XIV,agora perdido algures e abandonado. Só com os mapas e a memória visual do Zé lá conseguiria chegar outra vez!



Ora cá está um feliz romeiro com ar de guarda costas do Abramovich.


 Um menos feliz, com ar de vítima do destino (com camélias em fundo!)



E um expert Kungfuzeiro que abusou da poção mágica ao almoço, claro!


E este princês que com o seu ar altivo observa a cena com piedoso menosprezo.

Mas também há os momentos bucólicos





Algures no Rio Alva


Por estranho que pareça este tanque, ao lado do Alva, foi feito num sítio e tempo longínquos para banhos termais. No entanto, a coloração duvidosa da água, embora desencorajasse quaisquer veleidades banhístico- terapêuticas, reflectia uma nublada e poética imagem dos peregrinos...

que  se olham embevecidos nas águas termais que lhes reflectem  íntimas e narcísicas vaidades.
Diga-se que com razão! Todos ficámos mais bonitos.

Visitas históricas; aqui a Bobadela, outrora importante cidade romana de que vemos o arco do fórum, e que tem um imponente anfiteatro que estava em recuperação ao tempo da nossa visita


Lá perto, isolada, esta intrigante construção. É a Casa dos Espíritos, bar mais ou menos alternante, alternativa para noites solitárias de província. Nós, eu e o Zé, só fomos atraídos pelo insólito da fotografia, só! cross my fingers! .E pensam vocês que a provincia é uma parvónia!
Num sugestivo primeiro plano, as Vestais dançam à volta da coluna.



O Pedro mostra ao Zézinho a sua máquina fotográfica russa que faz fotos tipo olho de peixe  (terá sido oferta do Abramovitch?)


Alto da Serra do Açor, outrora coberta de florestas de castanheiros, hoje tristemente coberta de cinzas e pequenos arbustos. O Zé, à falta de cerveja, lá faz um esforço e bebe a beberragem local.
Momento digno de registo!


Ponto mais alto. Ao fundo a Serra da Estrela. Ao centro nós em pose (algo) fálica...
E eu como ponta de lança...


Et  la voilà, Serra da Estrela


Desta vez éramos só quatro e fomos na limousine do Zé



Em Seia, cabrito no forno (reparem que há sempre uma cerveja à frente do Zé)

E uns minutos de meditação na igreja local

Casa de pedra sobre uma imensa mole de granito. Imaginei-me o Jacinto de A Cidade e as Serras. Aqui era um bom local para morar uma velha tia,que nos esperasse de lareira acesa e jantar ao lume. Sonhos...


Só fomos à feira comprar queijo, mas o júbilo da populacha, pela nossa visita, foi tal que nos receberam  com banda de música.


E  os bombeiros não quiseram ficar atrás!

 Em casa do Vasco Ribeiro, em Oliveirinha, recepção  magnífica.


O olhar inocente deste bicho desperta-me um imenso apetite por vitela de Lafões, com a equivalente guarnição de culpabilidade.

E lá vamos nós pela inconfundível ponte a caminho de Tuy, terra galega, para comprar charutos e cigarrilhas...

 E, imaginem, visitar o túmulo de Torquemada, o grande inquisitor


Num nicho esta impressionante estátua. E são estas surpresas que por vezes nos esperam nas igrejas. Há aqui algo de sugestivamente sado-masoch.



Aqui descansa o dito Torquemada, que em boa verdade mais devia chamar-se Torqueimada




À saída da igreja, um restaurante com este curioso nome e logo. Também um pouco sádico, no?


Mais um auto-retrato (são praticamenteas únicas fotos minhas que tenho, não é narcisismo, não senhor!) 

E aqui está o Restaurante Jardim, em Penso, perto de Melgaço, local obrigatório de peregrinação para os apreciadores do negro pitéu, acompanhado pelo excelente verde Alvarinho da casa. Se lá forem comprem umas garrafas. Vale a pena, Por 5 € é uma pechincha.



E enquanto se espera mesa, um aperitivo e um jogo de matrecos


E, já sentados...



... chega finalmente o objecto da nossa gula. Não liguem ao eventual simbolismo dos dedos. Não sei de quem são (confesso que parecem os meus) mas asseguro tratar-se apenas de um ocasional  instantâneo  sem quaisquer intenções menos próprias.

Castro Laboreiro. Pedro e Zé olham a paisagem do alto da ponte. Ah, se o homem tivesse asas!

      
E eu olho-os cá de baixo


José fotografa momentos íntimos, desforrando-se de em íntimos momentos ser fotografado.


Volta pela Senhora da Peneda. Há lá para baixo mais uma bela Via Sacra,que só eu fui ver, e de que apenas vos dou uma imagem para não ser acusado de voyerismo religioso.

Et la voilà!

 Original e supersónico táxi local, que por essa razão deu uma foto um pouco tremida.

Por vezes o nosso olhar distraído encontra pequenos pedaços de outros mundos. Este era bem alegre!


Foto do José movie star, para deleite de suas admiradoras


Capela de S. Félix na Barbeita. Estava fechada e não pude ver nem o interior nem as relíquias do dito santo que por lá repousam. Safam-se de mais umas fotos litúrgicas. Bela estrada e ponte romanas.

Que o Zé atravessa sob o fundo de nuvens brancas

E como mostra a imagem, são horas de voltar para Lisboa e suas rotinas. Até breve.

Não sem antes comprar uns deliciosos pastéis de Fão para adoçar quem com doces sentimentos aguarda a nossa chegada.

NOTA FINAL, agora escrita por mim, a Teresa: Este blogue é um trabalho de amor e de amizade (e a amizade é talvez a forma mais perfeita  de amor). Tudo o que é aqui publicado é amplamente discutido entre mim e o Carlos, em incontáveis telefonemas.Até a banda sonora. Com a minha paixão assolapada por Ópera, era inevitável que me lembrasse da Carmen, depois de o Carlos várias vezes ter referido o Zé como Don Jose. Está longe de ser uma das minhas óperas de eleição, já o Carlos gosta muito dela, achando-a leve, ligeira. Poupo-vos a nossa discussão, eu a dizer "por amor de Deus, a gaija morre esfaqueada, o que é que há de leve e ligeiro nisto?"

Chegámos a uma solução que agradava aos dois para a banda sonora. A Habanera, pela voz incomparável de Marilyn Horne, provavelmente a maior mezzo soprano do século XX.

Carmen era um espírito livre. Tal como Marie Duplessis, a Dama das Camélias. Tal como Violetta Valéry, a Traviata. Tal como o Zé, o nosso amigo de quem a saudade vai sendo cada vez maior. Vale-nos a memória.