segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Segunda-feira, 20 de Junho de 1988 - 11.º dia

Entrámos no antigo Sahra espanhol ao som de Monday, Monday, dos Mamas & Papas. Achei apropriado, sendo justamente segunda-feira. Este retrato foi tirado pouco depois, numa das incontáveis paragens diárias em que os meninos se entretinham a fotografar os motivos mais absurdos.

Se dei um grande salto no tempo e pus aqui agora esta fotografia foi só para homenagear Denny Doherty, voz linda, que morreu há dois dias.

Estou desculpada, não estou?

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A Demanda do Alguidar - Parte I



Ai, o alguidar! O que eu penei para ter um alguidar!

Será preciso explicar aos leitores mais desatentos que, na minha categoria de membro da expedição a quem calhavam sempre as tarefas menos nobres, a compra do dito foi uma espécie de ascensão do Inferno ao Purgatório. Palavrinha de honra! Só eu sei o que era fazer incontáveis viagens ao regato com pratos, copos, talheres e demais apetrechos de cozinha nas mãos, pousar tudo nas ervas, ou calhaus, ou o que fosse. Porque a essa hora os meninos filosofavam à beira da fogueira e cá a sqwaw ainda estava de serviço...

Já não sei onde foi que finalmente conseguimos comprar o alguidar, mas este retrato atesta à saciedade a boa compra que foi. O Dr. Carlos Vatel Gomes usa-o para dar banho ao jeep, julgo que já perto de Ouarzazate e depois da descida da montanha - a tal que me ia fazendo morrer de medo. Em boa verdade, se não morri então de ataque cardíaco é porque me está destinada outra morte qualquer. Nota máxima para a condução do Carlinhos à beira daquele precipício (confesso que fechava os olhos a toda a hora), nota máxima para o carinho do Zé, sempre aquele grande senhor, que acabou aquela descida que me pareceu levar séculos aflito do braço esquerdo, tamanha a força que tinha de fazer a segurar-me para que os solavancos me magoassem o menos possível. A famosa contractura muscular que fiz logo ao 3.º ou 4.º dia, quando caí lá no raio das piscinas naturais. E ainda vocês se admiram por eu odiar este país!

No meio daquele pesadelo que foi a descida por aquela vereda de montanha, só me lembro de pensar a toda a hora: Se nos aparece alguma coisa pela frente, nem que seja um burro, ninguém sai daqui vivo!

Lembro-me também, porque nada tem uma força evocativa maior do que a música ou os perfumes, que estava a tocar King Crimson, In the Court of the Crimson King. Que era do Carlos e eu não conhecia - isto de ser perto de 20 anos mais nova tem os seus inconvenientes. Ainda hoje, quando oiço o disco, tenho rápidos lampejos de precipícios na montanha e de rodas do jeep quase a trilharem o vazio nas curvas. A descida foi tão longa que até deu para ouvirmos também o meu Songs of Leonard Cohen, senhor muito cá das minhas obsessões.

Oh the sisters of mercy,
they are not departed or gone.
They were waiting for me
when I thought that I just can't go on.
And they brought me their comfort
and later they brought me this song.
Oh I hope you run into them,
you who've been travelling so long.

Yes you who must leave everything
that you cannot control.
It begins with your family,
but soon it comes around to your soul...

Eu sou tramada, meninos...! Como foi que eu acabei a citar Leonard Cohen quando o tema era um humilde alguidar e a sua grandiosa demanda?

domingo, 21 de janeiro de 2007

Onde terá sido isto tirado?...

 
Confesso que não me lembro.

Perto de Figuig, aquela cidade longínqua e carrancuda perto da fronteira com a Argélia e que parecia um aquartelamento militar?

A ideia de aqui porem os vossos comentários passa também por suprir as lacunas da minha memória...

Se o Guia Michelin visse isto...


Sem comentários. Escusado será dizer que nem sequer entrámos neste pardieiro...

Os fedelhos ranhosos...

 
Estavam em toda a parte, como uma praga, mesmo e até nas paragens mais remotas e nas aldeolas mais isoladas da montanha, como esta.

Cercavam-nos em bandos, puxavam-nos pela manga, penduravam-se nos estribos do jeep, a pedir presentes.

Foram sistemática e implacavelmente corridos com toalhetes perfumados TAP. Bem feito!

A Escriba

Depois da trabalheira de montar o acampamento, gozo um merecido descanso enquanto vou bebendo um copo de vinho e o Carlos prepara o jantar.

Gargantas do Todra.




Nota à margem: foto irremediavelmente datada. Hoje em dia ninguém se lembraria de cocktail de gambas para entrada...

Dr. José Indiana Alves

Julgo que este retrato terá sido tirado quando pernoitámos nas gargantas do Todra.

O Zé está com a sua toilette habitual à noite, com o forro do meu blusão vestido (aquelas mangas encarnadas que se vêem), e empunha a sua célebre faca de cortar a cebola, o nome maldoso que eu e o Carlos lhe demos.

A referência à salsa era comigo, que em cada mercado de cada vilarejo não descansava enquanto não desencantava uma banca qualquer que a tivesse.